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Amor Vascaíno

 

    
    O som estridente do radinho de pilha podia ser ouvido de longe. A inconfundível voz de Jorge Curi conclamava as multidões a acompanhá-lo na Rádio Globo aquela tarde, mandando levarem o rádio ao estádio. Bida, assim, logo identificou onde procurar por seu avô. Do outro lado do muro baixo das ruas tranquilas, na calçada, provavelmente sentado na velha cadeira de armar com assento de lona azul, encosto de madeira e pernas enferrujadas. Seu pai pedira que o chamasse porque não queria que se atrasassem para a ida ao Maracanã. Havia pedido à mãe que servisse mais cedo o almoço. Naquele dia não bastaria chegar cedo, comprar os ingressos e subir a rampa que ficava próxima aos trilhos da rede ferroviária federal.
    
   Abriu o portão e ali estava o avô, sozinho, cigarro apagado entre os dedos indicador e médio da mão distraída que envolvia, com os dedos restantes e a palma da mão, um copo de chá vazio. Olhou com carinho para o avô. Aquele senhor libanês se apaixonara por futebol desde que desembarcara no Brasil e vira a festa em que cada dia de jogo transformava a cidade. E transmitira a paixão ao filho e depois ao neto, que levava seu nome. E tamanha paixão o aproximara de diversos jornalistas e jogadores, transformados em clientes da lanchonete ali na Praça Carmela Dutra, em Benfica, onde moravam.

   Bida estava encantado com a notícia que o pai lhe dera. Parou por um instante ao lado do portão, imóvel. Um jornalista, amigo do avô, havia lhe conseguido um presentão. Jogariam Flamengo e Vasco naquela tarde de domingo de 1974 e ele poderia entrar em campo com os jogadores. Sonhou até em fazer umas embaixadas na frente da torcida com a bola do jogo e, no delírio, conseguia ouvir os aplausos e ver os olhos orgulhosos do pai e do avô. Uma lágrima de alegria quase desceu pelos olhos marejados, mas ele tratou logo de enxugar.

- Vô, papai mandou chamar. Vovó já serviu o almoço.

    O avô lhe lançou um olhar carinhoso, levantou-se da cadeira com agilidade e estendeu a mão. Assim, de mãos dadas, caminharam juntos e lentamente pelo quintal, evitaram a porta da frente, atravessaram a garagem e subiram pela pequena escada ao fundo, que dava diretamente na grande copa onde costumavam almoçar. A avó preparara um quibe de cordeiro que somente ela sabia fazer. Afinal, era um dia especial para Bida.
    
    A excitação era tamanha que a fome de gigante que sempre o acompanhava havia desaparecido. Mal dormira na noite anterior. No entanto, comeu. Mais por hábito que por vontade. E, menino muito esperto, sabia que a avó não lhe daria sossego se não comesse e temia que algo atrapalhasse os planos daquele domingo.

    Tudo correu bem. A brasília azul-claro daquela vez pegou sem que precisassem empurrar; os sinais estavam todos abertos de Benfica ao Maracanã e havia uma vaga muito boa em que o pai estacionou, bem na frente da entrada em que deveriam se identificar para serem conduzidos ao local em que veria de muito perto todos os seus ídolos. O jornalista de nome engraçado e amigo do avô, o tal que conseguira que entrasse como mascote, já os esperava. Os olhos de Bida brilhavam e mal conseguia tirar do rosto o sorriso. Os quatro caminharam pelo lado externo do estádio, passaram por uma larga entrada cheia de gente e chegaram a uma sala onde ele foi entregue, com a promessa da simpática senhora que cuidava de quem ali chegava de entregá-lo de volta no mesmo lugar ao final do jogo. Devia haver ali umas 20 crianças, a maioria meninos da mesma idade de Bida.

    O pai e o avô foram para a arquibancada. O pai lhe deu um beijo na testa e o avô piscou o olho e tinha uma expressão otimista no rosto. Com as mãos fez um sinal: 2 a 0 hoje.

    Bida entrou e olhou em volta. Estavam distribuindo os uniformes para os mascotes e estava tão encantado com tudo que não se deu conta da movimentação. Olhou as fotos nas paredes. Ídolos de todos os times e todas as épocas, coloridas e em preto e branco. Parou na frente de um que carregava a cruz de malta no peito sobre a faixa cruzada e sentiu um nó na gargante. Estava próximo de lhe dar um caloroso abraço. Acabou sendo o último a receber o uniforme. Fechou a cara. Aquelas não eram as cores do seu time. Não era aquele o uniforme que queria vestir. Mas não teve jeito. Nenhuma das outras crianças quis trocar.

    Como consolo, deixaram-no entrar com a bola do jogo nas mãos.

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